Lucénio Saraiva – Caves Primavera – Entrevista

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Lucénio Saraiva – Caves Primavera – Entrevista

Na MagazineHM do mês de maio, apresentamos uma entrevista a Lucénio Saraiva, Diretor de Exportação nas Caves Primavera. As Caves Primavera foram fundadas em 1944 por dois irmãos, Lucénio e Vital de Almeida. Hoje são das maiores exportadoras de vinho em Portugal.

 

Em quase 80 anos de história, quais foram os maiores desafios e realizações da Empresa?

A longevidade da nossa empresa faz com que tenhamos vários momentos chave na nossa história. Depois de termos “nascido” em Março de 1944, o primeiro momento de mudança importante surge em meados dos anos 50 com a construção da base das instalações actuais. Esta mudança que trouxe consigo a construção de uma cave, representou um voltar de página, inicialmente as Caves Primavera estavam no centro da aldeia de Aguada de Baixo com o nome Vinícola Primavera – permitiu-nos passar a denominarmos de Caves Primavera e começar a produzir vinhos espumantes, para além dos vinhos tranquilos que já produzíamos.

O grande desafio a partir do momento em que nos fixámos nas novas instalações e nos equipámos devidamente, foi do ponto de vista comercial – fazer crescer a empresa a partir das vendas. A década de 60, 70 e parte da de 80 foram essenciais para o crescimento das Caves Primavera, principalmente com o trabalho realizado nos PALOP’s, mas também com a abertura de mercados do Norte Europeu.

Este crescimento levou-nos a um grande investimento, para ultrapassar um dos desafios/lacunas da empresa no início dos anos 90, a ausência de vinificação própria. Foi então no início da década de 90 que construímos o nosso centro de vinificação e passámos a receber e vinificar as uvas da região da Bairrada na nossa empresa.

Outro marco importante ocorre no início do milénio com o desenvolvimento e lançamento para o mercado do nosso produto mais conhecido durante os últimos anos – o Espumante Primavera Baga Bairrada Bruto. Um espumante que tem imensos admiradores pela sua frescura, suavidade, cremosidade, doçura e uma linda cor salmão.

Nos últimos anos o grande desafio tem sido adaptar a nossa oferta a um mercado cada vez mais volátil e que exige cada vez mais da empresa: novidades, certificações, modernização de equipamentos, entre muito outras coisas. Temos estado à altura, mas agora enfrentamos uma nova realidade: a pandemia e a economia pós-pandemia.

 

Quais consideram ser os maiores desafios para os vinhos da região da Bairrada?

A região da Bairrada é uma região que precisa de um grande trabalho de comunicação para ultrapassar “estereótipos” associados à região, que são cada vez menos correspondentes à verdade.

O desenvolvimento que temos tido na região nos últimos anos é assinalável. A qualidade dos produtos tem crescido exponencialmente. A ideia de vinhos adstringentes nos tintos e ácidos nos brancos é resultado de ideias antigas que demoram a ser dissipadas por um mercado ainda algo “relutante” para com a Bairrada.

Hoje em dia, para além da reconhecida qualidade dos nossos espumantes, dos quais a nossa região é a produtora por excelência, sendo que cerca de 60% dos espumantes consumidos no país são provenientes desta região, os vinhos tintos da Bairrada são vinhos para serem consumidos de imediato, mas com grande potencial para serem vinhos de guarda, e os nossos vinhos brancos são fresco e suaves. Para além disso a casta Baga, que é uma casta tinta, sendo esta a rainha da região, tem ganho grande notoriedade, sendo reconhecida mundialmente pelas suas qualidades devido a um grande trabalho que tem sido realizado pelos produtores da região – os mercados externos começam a procurar especificamente produtos com esta casta.

O desafio agora está em trabalhar a região, via promoção constante, para que o mercado reconheça as potencialidades da região.

 

Quais são as caraterísticas do Espumante da Bairrada que o distingue dos Espumantes de outras regiões?

A região tem vantagem sobre as outras regiões na produção de espumantes, não só por causa do know-how acumulado de longos anos de trabalho dos produtores da Bairrada, a Bairrada produz este tipo de vinhos há mais de 100 anos, mas também porque os solos e o clima da região permitem crescer uvas com as características perfeitas em termos de acidez. Para além destas características que permitem uma diferenciação natural do produto, grande parte das empresas da região estão equipadas com as estruturas especificamente desenvolvidas para a produção de espumantes.

Esta combinação de fatores faz com que os Espumantes da Bairrada se destaquem pela frescura dos espumantes, equilíbrio dos aromas e sabores, mineralidade e cremosidade que garante uma excelente envolvência na boca.

 

Nos próximos 5 anos quais serão os maiores desafios do setor?

Tal como em grande parte dos vários sectores da economia, no sector do vinho também não foi diferente – a pandemia veio mudar tudo. Se antes o sector do vinho crescia com grande vigor, aumentando as exportações e introduzindo novidades com grande frequência, a pandemia veio “travar” este crescimento e apresentar um quadro de sobrevivência ou de reformulação de objetivos para muitas empresas do nosso sector.

Neste momento o grande desafio será a recuperação e para isso temos que aguardar que o mercado comece a reagir normalmente com o desconfinamento e a procura do “voltar ao normal”. Quando tivermos uma noção de que o mercado está a recuperar, o desafio passará então por voltar a fazer com que o vinho e espumantes estejam presentes nos momentos diários, sociais, de celebração das pessoas e recuperar as dinâmicas de promoção do vinho português que vinham a ser implementadas com bastante sucesso.

Em termos comerciais acreditamos que com os sinais de recuperação será uma boa altura para apresentar novidades a um mercado que vais com certeza procurar algo novo e diferenciador. O trabalho de exportação terá que ser um pouco de “back to basics” para reconectar com os clientes, com os contactos que tinham sido realizados antes da pandemia e analisar o estado de cada mercado.

Neste momento é difícil identificar quais os desafios maiores para os próximos 5 anos, pois depende de quando voltaremos a viver “como antigamente” e de perceber qual o mercado pós-pandemia.

 

Têm vindo a recorrer a alguns fundos comunitários, nomeadamente na área da Exportação. Tendo em consideração a vossa experiência, o que gostariam de ver mantido e/ou alterado nos apoios previstos para os próximos 7 anos?

Os fundos comunitários têm sido uma ajuda importante no nosso processo de internacionalização, não só pela perspetiva de abrir novos mercados, mas também por ajudar a suportar custos que nos ajudam a fidelizar clientes. São uma excelente “ferramenta” de apoio às exportações portuguesas.

A dinâmica atual dos apoios deve ser mantida, com apoios diretos a deslocações e estadias, tanto na vertente direta como na inversa – muito importante para agradar e fidelizar clientes. Acreditamos que deve ser reforçada a regra de apoio a despesas fora do âmbito das deslocações e estadias, de despesas gerais da deslocação (fora do Internacionalização PME, por exemplo) ou despesas ainda em Portugal, que estão envolvidas numa viagem. As verbas dirigidas a apoios da promoção devem ser reanalisadas de forma a estarem de acordo com o que as empresas nacionais procuraram (por exemplo, reforço dos apoios a marketing digital, cada vez mais influentes).

Entendemos que se deve realizar uma atualização dos apoios, adaptando-os a mundo pós-pandemia que vai exigir das empresas dinâmicas diferentes do que assistíamos até ao momento.

 

Lucénio Saraiva

Caves Primavera