A produção de vinho na Quinta do Côtto foi centrada durante séculos no vinho do Porto mas também em pequenas quantidades de vinho branco e tinto para consumo exclusivo da família. Sob a liderança de Miguel Champalimaud, que a partir de 1976 tomou a seu cargo a produção dos vinhos da Quinta do Côtto, assistiu-se ao estabelecimento do conceito de Vinhos de Quinta que, nos últimos 30 anos, tem sido o conceito estruturante da vitivinicultura e enologia Portuguesa.

Hoje, para os apreciadores Europeus de vinho, ser um Vinho de Quinta significa que, para além de ter sido produzido e engarrafado num terroir específico, a Quinta, aquele vinho foi cuidadosamente produzido e seleccionado pelo proprietário da mesma, o que lhe garante a qualidade, personalidade e autenticidade sem as quais nenhum bom vinho é um grande vinho.

A empresa é cliente da HMW e lançámos o desafio de comentar sobre a evolução da Região do Douro. A resposta tem a assinatura de João Grave, Enólogo e responsável pela Viticultura da Quinta do Côtto.

 

Como é que tem sido a evolução da região?

 

Os dados históricos que ligam a Região do Douro à produção de vinho são muito antigos e anteriores à própria demarcação da região. Os primeiros indícios talvez sejam grainhas de videiras de “Vitis vinifera”, que foram descobertas e remontam a alguns séculos antes de Cristo. Vários lagares de vinho têm sido também descobertos um pouco por toda a região, que nos fazem recuar aos séculos III-IV, época em queQuinta do Côtto os Monges de Cister deram um grande impulso ao desenvolvimento da viticultura da região. Na segunda metade do século XVII é criada a designação de Vinho do Porto, mas só a 10 de setembro de 1756 é instituída a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e que seria o início daquela que hoje conhecemos por Região Demarcada do Douro (RDD). Até 1761 deu-se esta primeira demarcação, conhecida como “demarcação pombalina”, através de 335 marcos de pedra com a designação de Feitoria, que delimitavam a região desde a zona de Barqueiros, até ao vale do rio Pinhão. Mais tarde, entre 1788 e 1793, houve uma nova demarcação que estendia a região até ao Vale de Ribalonga, perto do Cachão da Valeira que impedia a navegação para montante. Após a chegada do oídio na década de 50 do século XIX e a destruição causada pela filoxera, na década seguinte, é em 1907 que ocorre a terceira demarcação que anexa a sub-região do Douro Superior, até à fronteira com Espanha.

A RDD abrange assim uma área total de 250.000 hectares, sendo que hoje em dia perto de 45.000 hectares estão plantados com vinha. Inserido nesta área está o Alto Douro Vinhateiro, com 24.629 hectares, reconhecido pela UNESCO como Património da Humanidade em 2001. A área plantada em condições de viticultura de encosta, no Douro, representa perto de 40% de toda a área de viticultura de encosta a nível mundial (CERVIM, 2006). Falando da história da Região, seria um lapso não referir algumas das personalidades que tiveram um papel determinante na sua evolução, como o Marquês de Pombal (1699-1782), responsável pela primeira demarcação e regulamentação da Região; o Barão de Forrester (1809-1861), que levou a cabo os primeiros levantamentos cartográficos e fotográficos do Douro; ou a D. Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896), senhora de um enorme carisma, que deu um grande impulso à Região e teve um papel determinante em vários aspectos: desde o combate à filoxera, a inovação nos métodos de produção de vinho, ou o crescimento para o Douro Superior.

Navegando o rio Douro para montante é possível atravessar as 3 sub-regiões, começando pelo Baixo Corgo, seguido pelo Cima Corgo e terminando no Douro Superior, até à fronteira espanhola. A RDD tem um clima mediterrâneo com verão quente. À medida que se sobe o rio as temperaturas tornam-se mais extremas e a precipitação diminui. Com vinhas viradas a todas as exposições, plantadas a altitudes compreendidas sensivelmente entre os 80 e os 700 metros, solos na sua maioria de origem xistosa, com formações graníticas em algumas zonas e 115 castas autorizadas, o Douro tem sido sinónimo de diversidade e evolução. Dado o clima quente e seco, a Região começou por descobrir a sua vocação para a produção de vinhos licorosos (o Vinho do Porto) e só mais recentemente, desde a década de 80 do século XX, tem vindo a descobrir o seu potencial para produção de vinhos DOC Douro. Neste capítulo, deixa-nos muito contentes saber que tivemos um papel impulsionador nesta transição, ao termos sido pioneiros na produção deste tipo de vinhos com as marcas Quinta do Côtto e Quinta do Côtto Grande Escolha, desde a colheita de 1980.

A natureza desta região com solos pouco férteis, clima quente e seco, vinhas de baixas produções, difícil mecanização e elevada necessidade de mão de obra, originam elevados custos de produção da matéria-prima. É por isso impossível competirmos com outras regiões caracterizadas por climas mais húmidos, solos férteis e de grande possibilidade de mecanização das vinhas, na produção de vinhos de preço competitivo. O Douro tem por isso de continuar o seu caminho de valorização dos seus vinhos junto do consumidor e de mostrar que os vinhos aqui produzidos têm características únicas, que os diferenciam de todas as outras regiões do mundo. Só através da valorização é possível justificar a produção de um produto agrícola, que é a uva, numa região com condições tão adversas à agricultura e trazer valor e sustentabilidade a toda a cadeia de produção de vinho, desde os pequenos agricultores que produzem uva, passando pelos produtores e engarrafadores de vinho e por todos os agentes responsáveis por colocar os vinhos aqui produzidos nos vários canais do mercado nacional e na exportação. Creio que para alcançar este reconhecimento a nível global a Região tem de continuar o seu percurso de autodescoberta.

Esta descoberta deve ser feita ao nível da geografia da Região, através de um cada vez mais aprofundado conhecimento das suas sub-regiões e identificação dos terroirs que as constituem. Também ao nível do elevado património genético, pois tradicionalmente as vinhas eram plantadas em field blend com a mistura de um elevado número de variedades dentro da mesma parcela e, por isso, existe um grande caminho a percorrer no melhor conhecimento de cada uma destas castas: quais as zonas em que cada uma delas se adapta melhor, qual o seu comportamento e características quando vinificadas em separado e como se podem encaixar nos diversos tipos de vinho produzidos na Região. À semelhança do que está a ser feito em outras regiões do mundo, descobrir as castas melhor adaptadas a um cotexto de aquecimento global. Por fim a continuação da descoberta ao nível da viticultura na procura de formas de plantação que maximizem o aproveitamento do solo, evitando uma exposição demasiada das uvas e do solo à radiação solar, minimizando as perdas de água e erosão do solo e facilitando a possibilidade de trabalho das vinhas seja ele manual, ou mecanizado.

Nós, Produtores, não estamos sozinhos neste caminho e teremos de saber criar sinergias com outras áreas e dinamizar o enorme potencial que o Douro tem para o enoturismo. Só através desta sintonia de todos, podemos concretizar este desafio de aumentar o reconhecimento desta Região incrível, promover a identidade dos produtos aqui produzidos e garantir boas condições para que as gerações futuras se possam também fixar aqui.

João Grave, Viticultura & Enologia

Quinta do Côtto